Print de tela do artigo publicado pela Nature com participação do CTVacinas

Nature destaca descoberta liderada por pesquisadoras do CTVacinas que rompe paradgma de quase um século na pesquisa da malária

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Uma descoberta com potencial para redefinir o desenvolvimento de vacinas contra a malária acaba de ser publicada na Nature, considerada a revista científica de maior prestígio do mundo. Liderado por pesquisadoras do CTVacinas, o trabalho marca a primeira vez, desde a criação da revista, em 1869, e do primeiro artigo brasileiro publicado em 1958, que um estudo é conduzido integralmente por mulheres brasileiras, tendo primeira e última autoras do país.

O feito inédito para a ciência brasileira é protagonizado por Camila Barbosa e Luna de Lacerda (primeiras autoras) e Caroline Junqueira (autora sênior). O estudo abre uma nova perspectiva para o desenvolvimento de vacinas ao identificar antígenos capazes de gerar proteção mais ampla, duradoura e eficaz contra diferentes espécies e fases do parasita causador da doença.

A descoberta rompe uma barreira que a comunidade científica tenta superar há quase um século.

O estudo avança sobre um dos maiores desafios da imunologia: identificar quais componentes do parasita realmente são capazes de despertar uma resposta protetora dos linfócitos T, células fundamentais para o desenvolvimento de vacinas mais eficazes. Ao revelar um mapa inédito desses alvos imunológicos, a pesquisa não apenas apresenta novos candidatos vacinais, como também oferece um caminho para orientar o desenvolvimento de uma nova geração de imunizantes contra a malária.

“A publicação na Nature representa o reconhecimento internacional de um trabalho construído ao longo de muitos anos e fruto de uma ampla colaboração entre instituições brasileiras e estrangeiras. Mais do que um avanço para a ciência da malária, o estudo abre uma nova perspectiva para o desenvolvimento racional de vacinas capazes de oferecer proteção mais ampla e duradoura”, destaca Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas.

“Publicar esse trabalho na Nature já representa um marco científico. Mas há também um simbolismo muito forte: é a primeira vez que um artigo da revista é liderado integralmente por mulheres brasileiras. Isso mostra a força da ciência produzida no país e o protagonismo das pesquisadoras brasileiras em uma descoberta de alcance mundial”, destaca Luna Lacerda, uma das primeiras autoras do estudo.

Um problema que a ciência tentava resolver há décadas

Embora existam vacinas aprovadas contra a malária, elas ainda apresentam limitações importantes. Os imunizantes atualmente disponíveis concentram sua ação principalmente na fase inicial da infecção e têm eficácia variável ao longo do tempo, exigindo doses de reforço. Além disso, a maioria foi desenvolvida com foco em apenas uma espécie do parasita.

Um dos principais obstáculos sempre foi identificar quais proteínas da malária deveriam ser reconhecidas pelos linfócitos T, especialmente os linfócitos CD8+, responsáveis por destruir células infectadas. Diferentemente dos anticorpos, que impedem a entrada do parasita nas células, essas células de defesa têm potencial para eliminar o microrganismo já instalado no organismo.

Foi justamente essa lacuna que motivou o estudo agora publicado na Nature.

Uma descoberta construída a partir de outra

Luna Lacerda, pesquisadora do CTVacinas, apresentando estudo sobre vacina contra malária no auditório do BH-TEC
Luna Lacerda, pesquisadora do CTVacinas, apresentando estudo sobre vacina universal contra a malária. Créditos: Virgínia Muniz/CTVacinas

O trabalho parte de uma descoberta anterior da própria equipe internacional, que demonstrou que o Plasmodium vivax – espécie predominante nas Américas – infecta reticulócitos, glóbulos vermelhos jovens que ainda preservam mecanismos capazes de apresentar fragmentos do parasita ao sistema imunológico.

Essa observação derrubou um paradigma que perdurou por décadas. Até então, acreditava-se que os glóbulos vermelhos fossem incapazes de ativar respostas dos linfócitos T porque não apresentariam antígenos ao sistema imunológico.

A partir dessa constatação surgiu uma nova pergunta: afinal, quais proteínas do parasita estavam sendo exibidas por essas células?

A resposta exigiu o uso de uma das ferramentas mais sofisticadas da imunologia contemporânea: a imunopeptidômica, técnica que permite identificar diretamente quais fragmentos de proteínas estão sendo apresentados ao sistema imunológico durante a infecção, revelando os alvos efetivamente reconhecidos pelas células de defesa.

“Durante décadas, acreditava-se que a imunopeptidômica não poderia ser aplicada à malária porque se entendia que os reticulócitos infectados não eram capazes de apresentar moléculas do sistema HLA classe I. O estudo demonstrou justamente o contrário, abrindo caminho para uma estratégia considerada inviável até então”, explica Luna.

Uma nova geração de alvos para vacinas

Pesquisador do CTVacinas em laboratório produzindo estudos da vacina contra a malária
Estudo revoluciona a análise de parasitas causadores da malária. Créditos: Acervo da pesquisadora Luna Lacerda/CTVacinas

A análise revelou 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do Plasmodium vivax, nunca antes exploradas como candidatas vacinais. Muitas delas provavelmente passavam despercebidas pelas abordagens computacionais tradicionais por apresentarem baixa afinidade prevista, apesar de desencadearem respostas imunológicas robustas.

O achado chamou ainda mais atenção porque, em vez das proteínas de superfície tradicionalmente utilizadas no desenvolvimento de vacinas, a maior parte dos alvos identificados pertence a proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita, como proteínas ribossomais, histonas e proteínas da família ETRAMP.

O resultado, porém, chamou a atenção por outro motivo: em vez das proteínas de superfície tradicionalmente utilizadas no desenvolvimento de vacinas, a maior parte dos alvos identificados pertence a proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita, como proteínas ribossomais, histonas e proteínas da família ETRAMP.

Essa diferença é decisiva. Enquanto as proteínas de superfície sofrem constantes mutações para escapar do sistema imunológico, essas proteínas internas são altamente conservadas ao longo da evolução, justamente porque desempenham funções indispensáveis para a sobrevivência do parasita. Alterações significativas poderiam comprometer sua própria viabilidade.

Segundo o comentário publicado pela própria Nature, essa característica faz com que esses antígenos representem uma classe completamente distinta dos alvos explorados atualmente e potencialmente muito mais difícil de ser contornada pelo parasita.

Como resumem as pesquisadoras Denise Doolan e Carla Proietti, os pesquisadores identificaram “alvos evolutivamente conservados compartilhados entre espécies de malária e diferentes fases do ciclo de vida do parasita, reconhecidos pelo sistema imunológico humano”.

Proteção além de uma única espécie

Outro aspecto considerado transformador é que esses antígenos não estão presentes apenas em um estágio específico do parasita.

O estudo demonstrou que 71% das proteínas identificadas são conservadas entre diferentes espécies de Plasmodium e 75% são expressas em múltiplas fases do ciclo de vida do parasita, incluindo os estágios presentes no mosquito, no fígado, no sangue e até nos hipnozoítos, a forma dormente responsável pelas recaídas da malária causada pelo P. vivax.

Na prática, isso significa que uma vacina baseada nesses alvos poderá, futuramente, oferecer proteção simultânea contra diferentes espécies e diferentes momentos da infecção, objetivo perseguido pela comunidade científica há décadas.

Segundo Luna, essa capacidade decorre do fato de essas proteínas serem altamente conservadas ao longo da evolução do parasita. Como desempenham funções essenciais para sua sobrevivência, sofrem poucas alterações entre diferentes espécies e fases do ciclo de vida, tornando-se alvos particularmente promissores para vacinas de amplo espectro.

Resultados confirmados em diferentes modelos

Os alvos descobertos foram validados em amostras de pacientes infectados por Plasmodium vivax e Plasmodium falciparum, em primatas não humanos e em modelos experimentais com camundongos. Em todos esses cenários, foram observadas respostas robustas de linfócitos T CD8+, consideradas fundamentais para eliminar células infectadas. Dois dos antígenos identificados também demonstraram capacidade de induzir proteção em modelos animais.

Os resultados ainda foram confirmados em diferentes populações humanas, incluindo participantes do Brasil, do Mali e dos Estados Unidos, que apresentaram respostas imunológicas semelhantes aos peptídeos identificados, apesar da ampla diversidade genética relacionada ao sistema HLA.

Esse conjunto de evidências diferencia o trabalho de estudos puramente exploratórios. Mais do que apontar candidatos promissores, a pesquisa demonstra que esses alvos são naturalmente reconhecidos durante a infecção, desencadeiam respostas imunológicas protetoras e mantêm esse potencial em diferentes modelos experimentais e populações humanas.

Uma descoberta que pode beneficiar milhões de pessoas

Outro achado importante diz respeito ao mecanismo pelo qual esses antígenos são apresentados ao sistema imunológico.

Os pesquisadores demonstraram que muitos deles são apresentados por meio da molécula HLA-E, uma variante que apresenta pouca diversidade genética entre diferentes populações humanas. Isso pode representar uma vantagem importante para o desenvolvimento de vacinas, já que reduz um dos maiores desafios da imunologia: criar imunizantes eficazes para pessoas com perfis genéticos distintos.

Segundo o comentário da Nature, essa característica pode permitir o desenvolvimento de vacinas com proteção ampla independentemente da genética da população, algo especialmente relevante para regiões altamente afetadas pela malária, como a África, onde existe enorme diversidade genética relacionada ao sistema HLA.

Reconhecimento da principal revista científica do mundo

Além da publicação do artigo, a importância da descoberta foi reforçada pela decisão Editorial da Nature de dedicar ao trabalho um News & Views, espaço reservado a pesquisas consideradas particularmente relevantes para o avanço de determinada área do conhecimento.

No texto, as editoras afirmam que o estudo preenche uma lacuna histórica no desenvolvimento de vacinas contra a malária ao revelar um “panorama antes oculto” dos alvos reconhecidos pelo sistema imunológico humano.

Também destacam que os resultados inauguram “um novo caminho para o desenvolvimento de uma vacina amplamente protetora contra a malária” e apontam que a estratégia baseada em imunopeptidômica poderá influenciar pesquisas não apenas nessa doença, mas também em outras enfermidades infecciosas, repetindo um impacto semelhante ao observado na pesquisa em câncer.

Ciência brasileira na fronteira do conhecimento

A liderança de pesquisadores do CTVacinas em uma descoberta publicada na Nature reforça o protagonismo crescente do Centro em pesquisas de fronteira voltadas ao desenvolvimento de vacinas e imunobiológicos.

Mais do que integrar uma colaboração internacional de excelência, o trabalho demonstra a capacidade da ciência desenvolvida no Brasil de contribuir para responder alguns dos maiores desafios globais da saúde pública.

Ao identificar alvos imunológicos com potencial para orientar uma nova geração de vacinas contra uma doença que ainda ameaça quase metade da população mundial, o estudo amplia as perspectivas para o controle da malária e consolida a atuação do CTVacinas entre os grupos que hoje ajudam a definir os rumos da vacinologia internacional.

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