Como Será A Fachada Do CNVacinas Vista De Quem Está Fora Do BH-TEC (CTVacinas/Divulgação)

CTVacinas protagoniza mais um marco histórico: o Centro Nacional de Vacinas

CTVacinas não cansa de fazer história. Menos de um mês após atingir um estágio nunca alcançado no Brasil no desenvolvimento de uma vacina 100% nacional, o centro de tecnologia da UFMG vai protagonizar novo marco na ciência brasileira: a inauguração da pedra fundamental do Centro Nacional de Vacinas, no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).

O ato, que será realizado na próxima segunda-feira (19/12), materializa a busca do país pela independência tecnológica em relação à produção de insumos imunológicos, imunógenos e vacinas de uma forma geral.

“É uma estrutura que não existe, hoje, no Brasil. Tem como objetivo tornar nosso país autossuficiente em todas as etapas da produção, conceitualização, desenvolvimento, estudo científico até o estudo clínico da vacina”, explica o professor da UFMG Flávio da Fonseca, integrante do comitê gestor do CTVacinas.

Estrutura inédita

Serão aproximadamente 6 mil metros quadrados de área construída: um prédio de cinco pavimentos. A estrutura será em formato de L, com um braço mais longo e outro, mais curto.

“O mais longo vai contemplar toda a parte científica, de desenvolvimento, que é o coração do CNVacinas, é o estudo, desenvolvimento, teste pré-clínico, teste clínico de vacinas desenvolvidas por nós e por terceiros que queiram fazer uma colaboração ou um desenvolvimento com a gente”, esclarece Fonseca, doutor em Microbiologia.

Essa estrutura vai contemplar, ainda, biotérios em condições de NB2 e NB3 – níveis de biossegurança -, setores de desenvolvimento e produção de proteína recombinante, setores de análise de genoma, de proteoma, de bioinformática, de análises de respostas imunológicas, dos testes pré-clínicos e clínicos.

Estrutura contará com cinco pavimentos (CTVacinas/Divulgação)

Estrutura contará com cinco pavimentos (CTVacinas/Divulgação)

“E também um miniauditório e uma área onde vamos receber pacientes: ambulatórios para viabilizar a realização de testes clínicos importantes. Então, esse braço maior contempla toda essa parte científica e de desenvolvimento de imunógeno”, complementa o professor, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Capacidade única

E o braço curto? “Será uma estrutura de produção de lotes vacinais em condições de boas práticas de produção, boas práticas de fabricação – o famoso BPF. Uma estrutura que hoje não existe no Brasil”, anuncia Flávio da Fonseca, antes de contextualizar:

“Temos no país estruturas de produção de imunógenos em BPF, como Bio-Manguinhos, Butantan, entre outros… Mas não existe uma estrutura que possa ser utilizada para confecções de lotes clínicos. Exemplo: eu não posso chegar no Butantan ou Bio-Manguinhos e falar: ‘vocês podem parar sua produção por 4 meses enquanto a gente produz 10 mil doses para um testes clínico?'”.

Essa estrutura é fundamental para o centro conseguir abarcar todas as fases do desenvolvimento da vacina. A SpiN-TEC MCTI UFMG, por exemplo, vai precisar ser testada em milhares de voluntários em uma das fases dos testes clínicos. “Teremos uma minifábrica com capacidade BPF para produzir lotes clínicos em quantidades de 300 a 30 mil doses”, diz Flávio.

Projeto mostra como será a estrutura interna (CTVacinas/Divulgação)

Projeto mostra como será a estrutura interna (CTVacinas/Divulgação)

Vale uma observação: essa capacidade de produção é voltada única e exclusivamente para lotes clínicos. O centro faz todo o desenvolvimento da vacina e entrega a tecnologia para a indústria nacional fabricar em larga escala para a população brasileira.

E mais uma capacidade inédita! Como a seção BPF terá dois andares, o centro será capaz de produzir, ao mesmo tempo, pelo menos duas vacinas completamente diferentes. “Tanto vacinas produzidas em vetor procarioto, vacinas produzidas em RNA/DNA (genéticas), vacinas produzidas em vírus ou vacinas produzidas em células eucariotos“, diz um dos gestores do futuro CNVacinas.

Quando fica pronto?

Máquina faz terraplanagem no local onde será o CNVacinas.

As obras estão na fase de terraplanagem (CTVacinas/Divulgação)

Já foram superadas as seguintes etapas:

  • projeto técnico
  • análise de risco (parte mais teórica)
  • análises de custo
  • retirada vegetação com manutenção de árvores marcadas como preservadas

A construção está, atualmente, na fase de de terraplanagem do terreno. “As chuvas estão atrapalhando um pouco: a terraplanagem tem que ser feita com terreno seco, não pode ter lama nem área alagada. Mas, finalizando esta etapa, vamos para o estudo de fundação e a execução da fundação do prédio”, explica Flávio da Fonseca.

A previsão é que o Centro Nacional de Vacinas esteja totalmente pronto em 2025.

Marco na ciência brasileira

Atualmente, 80% a 90% de todas as vacinas aplicadas gratuitamente pelo SUS são importadas e apenas envasadas no Brasil – ou importadas já envasadas e apenas distribuídas pelo SUS no Brasil.

“O Brasil já foi um país capaz de produzir boa parte das vacinas que compreendem o Programa Nacional de Imunizações, só que anteriormente, se a gente tinha essa capacidade, com o tempo, por uma decisão estratégica, que pode ter sido justificável em algum momento da nossa história, o Brasil passou a importar muito mais do que produzir”, contextualiza o professor da UFMG.

“A SpiN-TEC MCTI UFMG é particularmente emblemática porque marca a primeira vacina nacional, ou seja, desenvolvimento, conceitualização, ideia, produção de lote clínico e estudo clínico realizados no Brasil”.

Vacina SpiN-TEC MCTI UFMG atingiu estágio inédito no Brasil (CTVacinas/Divulgação)

Vacina SpiN-TEC MCTI UFMG atingiu estágio inédito no Brasil (CTVacinas/Divulgação)

CNVacinas, portanto, é mais um marco: alcança um estágio que ainda não existe no Brasil. “Um centro que concentra em si toda a infraestrutura e todo o ecossistema necessários para o desenvolvimento de uma vacina”, diz Flávio.

Hoje em dia, nenhuma vacina no programa nacional foi desenvolvida, testada e produzida no Brasil. Ou são oriundas de tecnologias transferidas para o Brasil ou IFAs (Ingrediente Farmacêutico Ativo) são importados e o Brasil simplesmente envasa. As ideias de desenvolvimento de vacinas surgem no país, usualmente, dentro das universidades – e morrem por lá.

Orgulho mineiro

Um marco para a ciência brasileiro e, lógico, um orgulho mineiro. “Vem para, de fato, sedimentar esse DNA acadêmico e de inovação que o estado possui e tem desenvolvido. E também tem a mesma importância para fortalecer Belo Horizonte como polo de biotecnologia”, classifica o professor da UFMG.

Estrutura do centro vista por quem está dentro do BH-TEC (CTVacinas/Divulgação)

Estrutura do centro vista por quem está dentro do BH-TEC (CTVacinas/Divulgação)

“A criação do CNVacinas tem mais um peso essencial: é feita próximo a universidade, com apoio da universidade, Fiocruz, MCTI, e envolvimento de diversos outros centros de pesquisas, com colaborações estabelecidas com Bio-Manguinhos, Butantan, entre outros. Temos condições de criar uma referência nacional sediada em BH e Minas”, conclui Flávio da Fonseca.

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