Cerimônia de oficialização do CTV-RNA

Centro de RNA inicia operação em Minas com vacina contra malária e terapias contra câncer

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Minas Gerais passa a abrigar uma das estruturas mais estratégicas da ciência brasileira para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos avançados. A UFMG e a Embrapii oficializaram publicamente, nesta segunda-feira (31), a implementação do Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA), que receberá R$ 60 milhões do Ministério da Saúde ao longo dos próximos quatro anos.

O primeiro imunizante de RNA desenvolvido pela nova estrutura será destinado à malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie predominante na Amazônia brasileira e não contemplada pelas vacinas atualmente utilizadas contra a doença no exterior. O Centro também atuará no desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o câncer e de tratamentos capazes de orientar o organismo a produzir substâncias cuja ausência provoca doenças.

“Estamos muito felizes de estar aqui assinando, junto com a UFMG, essa parceria da Embrapii com o CTVacinas, que foi escolhido para ser o Centro de Competência em tecnologia de RNA mensageiro. Vamos desenvolver não apenas tecnologias em vacinas, mas também outras terapias e medicamentos, visando atender a população brasileira, principalmente por meio do SUS. São R$ 60 milhões que estamos aportando nos próximos quatro anos para desenvolver essas tecnologias com o melhor da ciência que está aqui na UFMG”, afirma o diretor de Operações da Embrapii, Marcelo Fabrício Prim.

MARCELO PRIM
Marcelo Prim, da Embrapii, destaca importância da parceria com CTVacinas e UFMG | Virgínia Muniz/CTVacinas

Além de Prim, compuseram a mesa da solenidade o secretário-adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Eduardo Jorge Valadares Oliveira; a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa; o presidente da Fapemig, Carlos Arruda; o reitor da UFMG, Alessandro Moreira; e o presidente do BH-TEC, Marco Crocco. A coordenadora do CTV-RNA e professora da UFMG, Santuza Teixeira, abriu a solenidade.

Para o reitor, a criação do Centro reforça uma articulação construída pela universidade ao longo de anos e amplia a conexão entre a pesquisa científica e o setor produtivo.

“O modelo de inovação que a Embrapii nos proporciona com esse Centro de Competência em RNA, desenvolvido aqui no BH-TEC, é de uma importância muito grande. O BH-TEC faz esse papel de aproximação da instituição com a sociedade, com a indústria e com as empresas. É um sucesso e um legado muito importante que a UFMG entrega para a sociedade”, afirma Alessandro Moreira.

Primeiro alvo: malária

A vacina contra a malária será o primeiro imunizante de RNA a integrar o portfólio do Centro. O alvo é o Plasmodium vivax, parasita responsável pela maior parte dos casos registrados na Amazônia brasileira.

As duas vacinas contra a malária recomendadas internacionalmente foram desenvolvidas contra o Plasmodium falciparum, espécie que concentra a maior carga da doença e das mortes no continente africano. Por se tratar de outro parasita, esses imunizantes não oferecem proteção contra a espécie predominante no Brasil.

VISITA AOS LABORATÓRIOS DO CTVACINAS
Embrapii e Ministério da Saúde visitam laboratórios do CTVacinas | Virgínia Muniz/CTVacinas

O CTVacinas já desenvolve a Vivaxin, candidata produzida por meio de uma plataforma de proteínas e que avança em direção aos estudos clínicos de fase 1. A nova vacina utilizará o mesmo alvo e a mesma sequência em uma plataforma de RNA.

“Vamos aproveitar todo o conhecimento acumulado com a Vivaxin e trabalhar essa mesma sequência em uma plataforma de RNA. A expectativa é obter uma resposta mais robusta e explorar as vantagens que essa tecnologia demonstrou durante a pandemia, como a flexibilidade e a rapidez de desenvolvimento”, explica Santuza Teixeira, coordenadora do CTV-RNA e professora da UFMG.

O projeto deverá percorrer as etapas de formulação, avaliação pré-clínica, estudos de segurança e submissão regulatória antes de chegar aos testes em humanos. A intenção é que o CTV-RNA tenha capacidade para conduzir diferentes candidatos simultaneamente e aproximá-los dos ensaios clínicos.

RNA contra o câncer

A atuação do Centro não ficará restrita às vacinas preventivas. Uma de suas linhas será dedicada ao desenvolvimento de vacinas terapêuticas, administradas a pessoas que já possuem uma doença para estimular o sistema imunológico a combatê-la.

No câncer, a tecnologia pode carregar informações relacionadas às características do tumor e ensinar as células de defesa a reconhecer alvos presentes nas células cancerígenas. Em vez de proteger uma população saudável contra uma infecção futura, a vacina terapêutica integra o próprio tratamento.

“Existe um grupo de vacinas que chamamos de terapêuticas. Elas ajudam uma pessoa que já está com a doença, estimulando o sistema imune a combatê-la. No câncer, não se trata de vacinar quem não tem a doença, mas de contribuir para controlar o tumor, especialmente quando ele ainda está em um estágio inicial”, explica a coordenadora.

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Santuza Teixeira reforça a necessidade de avançar nos estudos de RNA | Virgínia Muniz/CTVacinas

O anúncio do CTV-RNA ocorre em um momento de avanço internacional dessa tecnologia. Em agosto, uma terapia individualizada baseada em RNA, administrada em combinação com um medicamento de imunoterapia, apresentou resultados positivos em um estudo clínico de fase 3 com pacientes com melanoma de alto risco.

O resultado mostrou que a plataforma que ganhou visibilidade mundial durante a pandemia pode ocupar um espaço muito mais amplo na medicina. Parte do conhecimento que permitiu o rápido desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, inclusive, vinha de pesquisas anteriores com RNA para o tratamento do câncer.

“A vacina contra a Covid-19 não surgiu do zero. As empresas e os grupos de pesquisa já estudavam plataformas de RNA, inclusive para o câncer. A pandemia acelerou e demonstrou, em escala mundial, o potencial dessa tecnologia. Agora vemos esse conhecimento avançar novamente na oncologia”, destaca Santuza.

Além das vacinas

O RNA também pode ser empregado em tratamentos que não são classificados como vacinas. A tecnologia permite fornecer temporariamente às células uma instrução para que o próprio organismo produza uma proteína ou substância necessária.

Uma das pesquisas que começam a ser estruturadas no CTV-RNA envolve a hemofilia, doença relacionada à ausência ou à deficiência de fatores responsáveis pela coagulação do sangue. A estratégia em estudo é utilizar RNA para orientar o organismo a produzir o fator que não é gerado adequadamente.

“Em vez de administrar repetidamente a proteína pronta, podemos estudar uma forma de entregar o RNA para que o próprio organismo produza aquilo que está faltando. Esse é um exemplo de terapia com RNA que não é uma vacina e mostra a abrangência dessa plataforma”, explica Santuza.

O princípio também poderá ser investigado em outras doenças causadas pela ausência de proteínas ou por alterações em sua produção. Esses projetos ainda estão em fase inicial e precisarão demonstrar segurança e eficácia ao longo do desenvolvimento científico e regulatório.

Ciência e indústria

Uma das principais missões do CTV-RNA será impedir que esse conhecimento permaneça restrito à universidade. O Centro está estruturando uma associação de empresas para aproximar pesquisadores e profissionais da indústria farmacêutica.

As atividades incluirão projetos conjuntos, formação de profissionais, desenvolvimento de protocolos e apoio à criação de produtos. A expectativa é reduzir a distância entre a pesquisa acadêmica e o setor produtivo brasileiro em uma área que já movimenta numerosas empresas nos Estados Unidos e na Europa.

É justamente essa conexão que, segundo o presidente do BH-TEC, está no centro da atuação do Parque Tecnológico.

“Aqui tem sido feita a transformação do conhecimento que está dentro da UFMG na tecnologia que está dentro da sociedade. O Parque é um local onde a gente transforma patente em nota fiscal. Ter essa unidade aqui é fundamental, porque fortalece esse ambiente, essa ponte que é o parque, e ajuda também a sociedade a absorver o conhecimento e uma tecnologia produzida dentro da UFMG”, afirma Marco Crocco.

O modelo dos Centros de Competência Embrapii combina pesquisa e desenvolvimento, formação de recursos humanos, associação com empresas e atração ou criação de startups. O primeiro ciclo do CTV-RNA terá duração de quatro anos, com acompanhamento anual de metas e resultados. O primeiro ano funcionará como uma etapa probatória, durante a qual a equipe passará por treinamentos e consolidará o planejamento das atividades prioritárias.

Para o presidente da Fapemig, a chegada a esse estágio demonstra o resultado de investimentos científicos que precisam ser sustentados ao longo do tempo.

CARLOS ARRUDA NA ASSINATURA TERMO CTV-RNA
Carlos Arruda, da Fapemig, durante cerimônia de oficialização do CTV-RNA | Virgínia Muniz/CTVacinas

“Para nós, de uma agência de fomento, isto aqui é um sonho. O objetivo da Fapemig é apoiar instituições mineiras para gerar conhecimento relevante. E conhecimento relevante se gera com recursos, com gente capaz e com tempo. Aqui temos uma demonstração disso, em uma parceria entre o governo federal e o governo estadual”, afirma Carlos Arruda.

Equipe em expansão

O CTV-RNA entrou em operação em agosto e funciona inicialmente nos laboratórios do CTVacinas, no BH-TEC. Parte da equipe do Centro de Tecnologia de Vacinas passa a atuar também na nova estrutura.

Até então, a frente de vacinas de RNA contava basicamente com três pesquisadoras e três estudantes de doutorado. Com o novo financiamento, a previsão é ampliar a equipe para aproximadamente dez a 15 pessoas, entre pesquisadores, técnicos e estudantes.

PLATEIA ACOMPANHA A OFICIALIZAÇÃO
Colaboradores, pesquisadores e imprensa acompanham Cerimônia de oficialização do CTV-RNA | Virgínia Muniz/CTVacinas

“Já tínhamos conhecimento e projetos em andamento, mas trabalhávamos com uma equipe muito pequena. O novo recurso permitirá colocar mais pessoas no desenvolvimento de produtos e protocolos e avançar com diferentes projetos ao mesmo tempo”, explica Santuza.

A consolidação ocorrerá com a transferência para o futuro prédio do Centro Nacional de Vacinas. Todo o quarto andar do complexo será dedicado ao CTV-RNA, uma estrutura que foi considerada na seleção nacional conduzida pela Embrapii. A conclusão do prédio está prevista para agosto de 2027.

Saúde ganha espaço

Com o credenciamento do CTVacinas, a saúde passa a contar com dois dos 12 Centros de Competência vinculados à Embrapii. Até então, apenas o Hospital Israelita Albert Einstein representava a área. A maior parte das demais estruturas atua em campos como tecnologia digital, informática, energia e telecomunicações.

A presença ainda reduzida da saúde está relacionada às características do setor. Vacinas e terapias exigem ciclos mais longos de desenvolvimento, laboratórios especializados, estudos de segurança, avaliação regulatória e investimentos elevados antes de chegar ao mercado.

O secretário-adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, Eduardo Jorge Valadares Oliveira, destaca que a consolidação de estruturas como o CTV-RNA também responde a uma fragilidade histórica do país: a distância entre uma produção científica de alto nível e a capacidade nacional de transformar esse conhecimento em produtos.

EDUARDO JORGE NA ASSINATURA TERMO CTV-RNA
Eduardo Jorge, do Ministério da Saúde, pontua necessidade de centros como o CTV-RNA | Virgínia Muniz/CTVacinas

“Apesar de a nossa ciência ser excelente, ser de primeira linha, nossa dependência tecnológica, principalmente em produtos de alta tecnologia, continua aumentando. Iniciativas como essa, patrocinadas e financiadas pelo Ministério da Saúde juntamente com a Embrapii, possibilitam consolidar o conhecimento no país, consolidar essa base produtiva e desenvolver soluções voltadas aos problemas de saúde não só do Brasil, como também da América Latina”, afirma Valadares.

O investimento de R$ 60 milhões dará suporte à ampliação da competência científica e tecnológica, à formação de profissionais e à aproximação com empresas. Após o primeiro ciclo, o CTV-RNA será reavaliado para a continuidade das atividades.

Minas no mapa global

A implantação do Centro reúne estruturas que colocam Minas Gerais em posição singular na ciência brasileira: a UFMG, o CTVacinas, o BH-TEC e o futuro Centro Nacional de Vacinas. O estado passa a concentrar pesquisa, formação, desenvolvimento de produtos, conexão com empresas e infraestrutura dedicada a vacinas e terapias avançadas.

Para a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa, a nova estrutura se soma a investimentos já realizados pelo Estado e fortalece a capacidade mineira de transformar ciência em inovação.

MILA CORREA NA ASSINATURA DO TERMO CTV-RNA
Mila Correa, secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, celebra a produção de ciência de ponta em Minas | Virgínia Muniz/CTVacinas

“É uma data muito importante para Minas Gerais, porque celebra essa oportunidade com recursos do governo federal e se soma aos recursos que o governo do Estado já havia aportado, por meio das secretarias de Desenvolvimento Econômico e de Saúde, para a construção e a destinação dos equipamentos do CTVacinas. Agora, transformado em um Centro de Competência, ele representa uma oportunidade de geração de novos talentos, de pesquisa de ponta e de fortalecimento do ecossistema de Minas Gerais”, afirma.

A construção dessa capacidade ganhou urgência após a pandemia de Covid-19. Embora pesquisadores brasileiros tenham participado de diferentes etapas de estudos e produção, o país permaneceu dependente de tecnologias, insumos e conhecimentos dominados no exterior. Ao desenvolver equipes, plataformas e produtos próprios, o CTV-RNA pretende reduzir essa dependência e preparar o Brasil para responder com mais rapidez a futuras emergências sanitárias.

“Mais importante do que termos dez ou 15 pessoas trabalhando com RNA no CTVacinas é formar profissionais e criar capacidade no país. Precisamos assimilar, desenvolver e transferir essa tecnologia. É isso que coloca o Brasil no cenário global e nos deixa mais preparados para os desafios que virão”, conclui Santuza.

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