Plateia, Luna Lacerda e moderadora Ana Calçado no Fórum Brasileiro de Deep Techs

Da Amazônia à Nature: Pesquisadora do CTVacinas leva ao Fórum caminho para vacina universal contra a malária

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Uma pesquisa do CTVacinas iniciada com amostras frescas de pacientes em Porto Velho (RO), construída por uma rede internacional e publicada na Nature abriu um novo caminho para vacinas contra a malária. Essa trajetória foi levada, nessa quarta (29), ao Fórum Brasileiro de Deep Techs como exemplo da ciência brasileira capaz de enfrentar problemas negligenciados e gerar tecnologias de alcance mundial.

Pesquisadora de pós-doutorado no Instituto René Rachou/Fiocruz Minas e no CTVacinas, Luna de Lacerda abriu a programação técnica do encontro, na Escola de Engenharia da UFMG. Sua apresentação atravessou o percurso completo da inovação: a baixa concentração de investimentos, o trabalho de campo na Amazônia, a descoberta científica e o desafio de transformar um candidato vacinal em produto.

“Agora começa a parte mais difícil, que é a translacional. Durante muito tempo, o Brasil produziu pesquisa de ponta e encontrou candidatos importantes, mas muitos projetos foram engavetados ou enviados para outros países. Hoje temos uma ponte construída pelo CTVacinas para fazer essa descoberta avançar”, afirma Luna.

Luna Lacerda e Ana Calçado no Fórum Brasileiro de Deep Techs
Luna Lacerda abre a programação técnica do encontro com moderação de Ana Calçado. Créditos: João Moura/CTVacinas

Uma doença negligenciada

A malária provocou cerca de 610 mil mortes no mundo em 2024, segundo a Organização Mundial da Saúde. A maior parte dos óbitos ocorreu na África, onde predomina o Plasmodium falciparum. As duas vacinas recomendadas atualmente pela OMS foram desenvolvidas para essa espécie e não oferecem proteção conhecida contra outros plasmódios.

No Brasil e nas Américas, o cenário é diferente. O Plasmodium vivax concentra a maior parte dos casos e possui características que dificultam seu estudo e controle. O parasita pode permanecer dormente no fígado e provocar recaídas. Também não pode ser mantido continuamente em cultivo no laboratório, o que exige trabalho direto com amostras recém-coletadas.

“A malária mata cerca de 600 mil pessoas por ano. É próximo do número de mortes que o Brasil registrou durante toda a pandemia, mas se repete todos os anos. Mesmo assim, doenças que afetam regiões com menor interesse econômico recebem muito menos investimento”, compara Luna.

Luna Lacerda, pesquisadora do CTVacinas, no Fórum Brasileiro de Deep Techs
Luna destrincha desafios e soluções para o combate à malária no mundo. Créditos: Gustavo Andrade

A imunidade aponta

A pesquisa liderada por cientistas do CTVacinas mudou a forma de procurar candidatos vacinais. Em vez de partir das proteínas mais abundantes na superfície do parasita, a equipe investigou quais fragmentos eram apresentados pelas células infectadas ao sistema imunológico.

A análise identificou 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do Plasmodium vivax nunca exploradas como candidatas vacinais. Grande parte delas desempenha funções essenciais para a sobrevivência do parasita e, por isso, sofre poucas alterações ao longo da evolução.

O estudo mostrou ainda que 71% das proteínas são conservadas entre diferentes espécies de Plasmodium e 75% aparecem em múltiplas fases do ciclo de vida do parasita. Essa combinação sustenta a busca por uma vacina capaz de agir contra diferentes espécies e em distintos momentos da infecção.

“A gente observou como o próprio organismo mostrava ao sistema imunológico que estava infectado. Assim, encontramos proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita e conservadas entre espécies e fases. É essa característica que torna possível pensar em uma vacina universal”, explica.

Liderado por Camila Barbosa e Luna de Lacerda, com Caroline Junqueira como autora sênior, o trabalho tornou-se o primeiro estudo integralmente conduzido por mulheres brasileiras publicado na Nature. A revista também dedicou à descoberta um artigo da seção News & Views, reservado a trabalhos considerados relevantes para o avanço de uma área científica. A pesquisa revelou um conjunto de alvos antes invisível às abordagens tradicionais.

Do artigo ao produto

A publicação representa uma etapa decisiva, mas não encerra o desenvolvimento. Entre a descoberta de um candidato vacinal e o início dos testes em seres humanos estão a validação pré-clínica, a produção em condições controladas, a fabricação do imunizante, o envase e todo o percurso regulatório.

Esse intervalo é conhecido no ambiente de inovação como “Vale da Morte”, ponto em que pesquisas promissoras costumam ser interrompidas por falta de recursos, estrutura industrial ou conexão com empresas.

“Agora temos capacidade para fazer a pesquisa básica avançar pelas boas práticas de laboratório e de fabricação, chegar ao envase e construir o contato com empresas. A universidade não domina sozinha todas essas etapas. É essa integração que permite transformar uma descoberta em produto e chegar à Anvisa”, afirma Luna.

A experiência construída pelo CTVacinas com a SpiN-TEC, primeira vacina contra a COVID-19 inteiramente desenvolvida no Brasil, estruturou esse percurso. O Centro reúne pesquisa, desenvolvimento tecnológico, produção e articulação com empresas farmacêuticas, entre elas Cristália e Hipolabor.

A Vivaxin, candidata específica para a malária causada pelo Plasmodium vivax, já percorre o caminho regulatório para os primeiros testes em humanos. A UniMaV, desenvolvida a partir dos alvos associados à publicação na Nature, é a próxima candidata que a equipe pretende levar à etapa clínica. A expectativa apresentada por Luna é iniciar esses estudos em 2027, após a conclusão das fases pré-clínica e regulatória.

Luna Lacerda no laboratório do CTVacinas. Créditos: Laura Mota/CTVacinas

Ciência com origem

A participação no Fórum também deu visibilidade à trajetória de uma pesquisadora formada a partir da realidade que decidiu investigar. Natural da região Norte, Luna levou para o palco relatos sobre pacientes que enfrentaram 20, 30 ou até 40 episódios de malária ao longo da vida e sobre o distanciamento com que a doença ainda é percebida em outras partes do país.

“Para mim, é muito importante estar aqui como mulher do Norte do Brasil, ocupando lugares relevantes. Muitas vezes tive meu lugar colocado em xeque. Trazer essa atenção para a Amazônia também é mostrar que o Norte possui um potencial extraordinário para o desenvolvimento de ciência e tecnologia”, afirma.

Sua presença como keynote aproximou duas discussões que costumam avançar separadamente: a necessidade de produzir tecnologia de ponta e a definição de quais problemas essa tecnologia deve enfrentar. No caso da malária, o ponto de partida veio de uma doença concentrada em populações historicamente afastadas dos grandes fluxos de investimento.

Fórum nacional

O Fórum Brasileiro de Deep Techs reuniu, nesta quarta-feira (29), pesquisadores, empreendedores, investidores, empresas e gestores públicos na Escola de Engenharia da UFMG. A edição de Belo Horizonte foi realizada pela Wylinka, com coidealização da Caos Focado, correalização do BH-TEC e patrocínio nacional da Finep.

A capital mineira abriu o ciclo que percorrerá as cinco regiões do país para identificar barreiras enfrentadas por empresas nascidas da ciência e construir recomendações para políticas públicas. As edições anteriores já conectaram mais de 800 integrantes do ecossistema, 80 especialistas e representantes de mais de 60 instituições.

Nesta quinta-feira (30), as discussões seguem no BH-TEC com o Deep Tech Policy Lab. As contribuições da etapa mineira serão incorporadas a um documento nacional, que reunirá também os diagnósticos de Santarém, Porto Alegre, Goiânia e Salvador e será apresentado em outubro, em São Paulo.

Fórum Brasileiro de Deep Techs reúne ecossistema de pesquisa e inovação em Belo Horizonte. Créditos: Gustavo Andrade

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