Uma hipótese científica formulada há mais de uma década, duas pesquisadoras orientadas ao longo do caminho e uma descoberta capaz de abrir novos rumos para o desenvolvimento de vacinas contra a malária. A publicação do primeiro artigo da história da Nature liderado integralmente por mulheres brasileiras é também a história de uma geração de cientistas que cresceu fazendo ciência juntas.
O estudo, desenvolvido por pesquisadoras do CTVacinas, rompe uma barreira perseguida pela comunidade científica há quase um século ao preencher uma lacuna histórica no desenvolvimento de vacinas contra a malária. Mais do que o avanço científico, porém, a publicação simboliza o protagonismo de mulheres brasileiras em uma das revistas mais prestigiadas do mundo.
“A ciência para mim é uma paixão. Eu faço ciência por amor”, resume Caroline Junqueira, pesquisadora associada do CTVacinas e da Fiocruz, além de primeira autora sênior do estudo.
Uma pesquisa construída em gerações
A história começou em 2012, quando Caroline retornou ao Brasil após concluir o pós-doutorado na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Recém-premiada com o Grande Prêmio Capes de Tese, ela ingressou no laboratório coordenado por Ricardo Gazzinelli, na Fiocruz, levando consigo uma pergunta científica que daria origem ao projeto.
A hipótese construída naquele período passou a orientar uma pesquisa que atravessaria mais de dez anos.
Em 2016, Caroline iniciou a orientação do doutorado de Camila Dias, responsável por identificar proteínas do Plasmodium vivax reconhecidas pelo sistema imunológico. Anos depois, Luna Lacerda ingressou no grupo para transformar esse conhecimento em candidatos vacinais.
As três passaram a desenvolver etapas complementares de uma mesma investigação. Primeiro veio a hipótese científica. Depois, o mapeamento das proteínas. Em seguida, a construção das vacinas experimentais.
“Eu sempre tive mulheres cientistas muito presentes na minha carreira, que serviram de inspiração para mim. A pesquisadora em quem me transformei hoje é resultado de mulheres que me formaram, me apoiaram e acreditaram no meu potencial desde o início”, afirma Camila.
Muito além de um artigo
Ao longo do desenvolvimento da pesquisa, Caroline seguiu conciliando a liderança científica do projeto com a orientação das pesquisadoras, a coordenação de dezenas de colaboradores e o trabalho de bancada.
“Para a minha trajetória é fundamental exercer esse papel de mentora com mulheres na ciência. Não apenas com minhas alunas, mas também com outras pesquisadoras que me veem como referência. Avançar pesquisas, alcançar resultados e levá-las comigo nesse processo.”
Hoje, Caroline continua orientando o pós-doutorado de Luna, mantendo viva uma relação acadêmica que se consolidou ao longo dos anos.
Ciência feita em colaboração
Segundo Luna, um dos diferenciais do trabalho foi justamente a construção coletiva da pesquisa.
“Quando resolvi voltar ao Brasil depois do doutorado sanduíche em Harvard, ouvi que estava encerrando minha carreira. Esse artigo na Nature mostra que é possível fazer ciência de ponta aqui. Tivemos amostras da África, dos Estados Unidos, ensaios com primatas em Oregon e trabalhamos ao lado dos maiores especialistas da área.”
Ela destaca que o projeto reuniu cerca de 40 autores de diferentes instituições e países.
“Não faz diferença ter um autor a mais ou a menos. O importante é que cada um contribua com seu conhecimento para que a pesquisa avance. Essa descoberta ganhou a dimensão que ganhou justamente porque foi construída de forma colaborativa.”
Mulheres que abrem caminho para outras
Para Camila, a publicação representa também um marco para a presença feminina na ciência brasileira.
“Fazer parte do grupo de mulheres que liderou uma pesquisa publicada na Nature tem um significado muito grande. A ciência brasileira é cheia de mulheres extremamente talentosas, mas nem sempre visíveis. Espero que esse reconhecimento também abra portas para muitas outras.”
Luna reforça que esse protagonismo merece ser lembrado.
“É a primeira vez na história que mulheres lideram uma pesquisa publicada na Nature. Muitas notícias falam da descoberta, mas não destacam que essa também é uma conquista das mulheres na ciência.”

Ciência feita para as pessoas
Apesar do reconhecimento internacional, Caroline afirma que o momento mais importante da pesquisa está longe das páginas da revista.
“Esse trabalho só existiu porque dezenas de voluntários doaram sangue enquanto enfrentavam a malária. Não existe ciência sem essas pessoas. A pesquisa também é delas. Mais importante do que publicar é poder devolver à sociedade a informação de que aquela contribuição está gerando impacto real.”
Para as três pesquisadoras, a publicação na Nature representa muito mais do que um marco na carreira. É a demonstração de que ciência de excelência pode ser produzida no Brasil, de forma colaborativa, formando novas gerações de pesquisadoras e abrindo caminhos para que outras mulheres também ocupem posições de liderança na ciência mundial.