O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou oficialmente neste sábado (10), durante visita ao CTVacinas, em Belo Horizonte, a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início dos testes em humanos da Vivaxin. A candidata busca prevenir a malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil e para a qual ainda não há vacina disponível no mundo.
A tecnologia foi desenvolvida pelo CTVacinas, da UFMG, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório Cristália, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O trabalho conecta pesquisa universitária, financiamento público e participação da indústria farmacêutica nacional.

“Hoje é um dia histórico. O CTVacinas se consolida como a grande referência nacional e internacional”, afirmou Padilha. A visita ocorreu no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), onde estão instalados os laboratórios do Centro.
O anúncio celebra o aval concedido pela Anvisa nesta semana, com publicação no Diário Oficial da União na quarta-feira (7). A decisão permite avaliar a candidata em voluntários, passo necessário para investigar sua segurança e capacidade de estimular uma resposta imunológica.
Da pesquisa à população
A diretora da Anvisa, Daniela Marreco Cerqueira, também participou do anúncio e destacou a capacidade do CTVacinas de transformar descobertas da pesquisa básica em tecnologias que possam chegar à população. A Vivaxin e a SpiN-TEC, candidata contra a Covid-19, foram citadas como exemplos dessa trajetória.
“É um prazer e uma honra estar aqui no CTVacinas, conhecendo a estrutura que permite fazer a translação do conhecimento, da pesquisa básica para a pesquisa aplicada, com o desenvolvimento de vacinas para serem aplicadas na população”, afirmou.

Daniela ressaltou que a articulação entre academia, governo e indústria é fundamental para superar a distância entre a descoberta científica e o desenvolvimento de produtos. “A Anvisa está à disposição para apoiar esses projetos e fazer com que essa inovação chegue à nossa população”, disse.
Missão ganha forma
Para Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas, a autorização representa a concretização da missão do Centro: reunir conhecimento produzido nas universidades brasileiras e criar condições para que ele avance até aplicações em saúde.

“Nossa missão é realmente essa: pegar ideias da UFMG, mas também de outras universidades do Brasil, agregar valor no desenvolvimento de protótipos de produtos e levar para a sociedade”, afirmou.
O pesquisador destacou o Ministério da Saúde e a Anvisa como parceiros importantes nesse percurso. “É um momento de grande satisfação pelas nossas realizações. Momento de celebrar com os nossos parceiros institucionais”, disse.
Marco para a ciência brasileira
A vice-reitora da UFMG, Alamanda Kfoury, ressaltou o esforço coletivo por trás da chegada da Vivaxin à etapa clínica e o papel das universidades públicas na produção de conhecimento e inovação.

“Quero reconhecer e agradecer todos os pesquisadores e parceiros. É um marco para a ciência brasileira”, afirmou. Reconhecimento, gratidão e compromisso foram as palavras escolhidas pela vice-reitora para destacar a contribuição da universidade.
Conhecimento encontra produção
O presidente do BH-TEC, Marco Crocco, destacou a participação de uma empresa nacional no desenvolvimento da vacina e a importância dessa conexão para transformar pesquisa em tecnologia.
“Essa parceria conjunta entre a universidade, o Centro de Tecnologia de Vacinas e uma empresa nacional é tudo o que o Parque Tecnológico busca oferecer: a integração entre conhecimento, produção, setor científico e setor produtivo”, afirmou.
Para Crocco, o anúncio também reforça a contribuição do CTVacinas ao ambiente de inovação do Parque. “O Centro de Tecnologia de Vacinas é um parceiro importante do Parque Tecnológico”, disse.
Por que a Vivaxin importa
A malária vivax tem forte presença nas Américas e na Ásia e responde pela maior parte dos casos da doença no Brasil. Uma vacina contra esse parasita poderá acrescentar uma ferramenta ao diagnóstico, ao tratamento e ao controle do mosquito transmissor, contribuindo para a meta brasileira de eliminar a transmissão local da malária até 2035, caso sua segurança e eficácia sejam demonstradas.

A fase 1 prevê 48 voluntários saudáveis, de 18 a 59 anos, no Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG. Serão avaliadas três dosagens, com grupos que receberão Vivaxin ou placebo, em três aplicações com intervalo de 28 dias. O objetivo inicial é avaliar segurança e resposta imunológica.
Estrutura para novos avanços
A Vivaxin se soma a uma trajetória que inclui a SpiN-TEC, vacina contra a Covid-19 que concluiu as fases 1 e 2 e se prepara para a fase 3. Essa capacidade será ampliada pelo Centro Nacional de Vacinas (CNVacinas), em construção no BH-TEC, com instalações para pesquisa, desenvolvimento e produção de lotes destinados a ensaios clínicos.
Outra frente é o Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA), que já opera nos laboratórios do CTVacinas e terá espaço no futuro CNVacinas. A estrutura conta com investimento previsto de R$ 60 milhões do Ministério da Saúde em quatro anos e desenvolverá vacinas e terapias baseadas nessa tecnologia.
Durante a visita, Padilha destacou a importância da plataforma de RNA para “rapidamente desenvolver vacinas em situações de pandemia ou de emergência pública”. O ministro também citou a parceria com a Hemobrás para o desenvolvimento de terapias voltadas às hemofilias A e B, outro exemplo de aplicação do conhecimento da UFMG em saúde.
“Viva o CTVacinas, viva a universidade pública!”, declarou Padilha.