A ciência brasileira dá mais um passo estratégico rumo à autonomia tecnológica em saúde. A construção do Centro Nacional de Vacinas alcança um marco decisivo com a conclusão da fase 1 das obras. O avanço será celebrado na próxima segunda-feira, em evento que reunirá autoridades como a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, a reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, e representantes do Governo de Minas.
Instalado no BH-TEC (Parque Tecnológico de Belo Horizonte), o complexo científico vai integrar pesquisa, desenvolvimento e produção piloto de imunizantes em uma infraestrutura inédita no país.
O marco da obra coincide com outra data simbólica: os 10 anos do CTVacinas, centro responsável por iniciativas pioneiras como a SpiN-TEC, primeira vacina integralmente concebida no Brasil a chegar à etapa de testes clínicos em humanos.

Ao longo dessa década, o CTVacinas também consolidou uma robusta equipe científica. O que começou em 2016 com um grupo pequeno de pesquisadores hoje reúne cinco professores da UFMG no conselho científico — Ana Paula Fernandes, Helton Santiago, Renan Pedra, Ricardo Gazzinelli e Santuza Teixeira — que atuam junto com cerca de 80 pesquisadores.
O grupo inclui pós-doutores, estudantes de graduação, mestrado e doutorado, além de técnicos de laboratório e profissionais administrativos que ajudam a transformar conhecimento científico em soluções concretas para a saúde pública.

Ciência estratégica
A consolidação do Centro Nacional de Vacinas representa um movimento estratégico para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver imunizantes e tecnologias em saúde dentro do próprio país.
“A criação dessa infraestrutura coloca o Brasil em outro patamar na área de vacinas. Estamos estruturando um ambiente que integra pesquisa, desenvolvimento e produção piloto, algo fundamental para transformar conhecimento científico em soluções concretas para a saúde pública”, afirma o coordenador do CTVacinas, Ricardo Gazzinelli.

A nova estrutura nasce a partir da trajetória construída pelo CTVacinas ao longo da última década, período em que o centro consolidou equipes, plataformas tecnológicas e projetos de grande impacto científico.
Fase estrutural concluída
A primeira etapa da construção contemplou toda a base estrutural do complexo científico, incluindo os dois blocos principais do empreendimento: o edifício dedicado à pesquisa e desenvolvimento e a planta piloto destinada à produção de lotes clínicos de vacinas.
“Estamos concluindo toda a estrutura da obra dos laboratórios, tanto do bloco de pesquisa e desenvolvimento quanto do bloco que vai abrigar a planta piloto para produção de lotes clínicos de vacinas”, explica Santuza Teixeira, professora da UFMG e uma das coordenadoras do CTVacinas.
A partir de agora, o projeto entra em uma fase voltada à instalação da infraestrutura científica e tecnológica.

“O próximo passo é equipar os espaços com todos os equipamentos laboratoriais e as instalações necessárias para o funcionamento do Centro Nacional de Vacinas. Essa segunda etapa deve começar nos próximos meses”, reforça Santuza.
A previsão é que os primeiros laboratórios de pesquisa e desenvolvimento estejam completamente instalados até o fim de 2026.
“A expectativa é que, no início de 2027, esses laboratórios já estejam em funcionamento, com as equipes trabalhando nesses espaços. Ao longo de 2027, vamos finalizar também a planta de produção dos lotes clínicos.”
Estrutura inédita
Enquanto o prédio dedicado à pesquisa e desenvolvimento replica modelos já existentes em instituições científicas brasileiras, a planta de produção de lotes clínicos representa um avanço inédito no país.
“O prédio de pesquisa e desenvolvimento terá estruturas semelhantes às que vemos em instituições como o Instituto Butantan e a Fiocruz”, explica Santuza. “Mas a planta destinada à produção de lotes clínicos é algo realmente único no Brasil.”

A estrutura foi projetada especificamente para produzir imunizantes ainda em fase experimental.
“Ela permitirá fabricar vacinas que ainda não foram aprovadas pela Anvisa, ou seja, imunizantes que estão na fase de testes clínicos. Até hoje, no Brasil, a produção desses lotes costuma ser feita no exterior.”
Com isso, pesquisadores brasileiros poderão acelerar o desenvolvimento de novos imunizantes e reduzir etapas logísticas do processo científico.

“Essa estrutura vai permitir não só avançar mais rapidamente com os projetos do CTVacinas, mas também apoiar pesquisas conduzidas por cientistas de todo o país.”
Engenharia complexa
A complexidade técnica do empreendimento explica a divisão da obra em diferentes etapas. Segundo o coordenador do setor de engenharia e arquitetura da Fundep, Juliano Cavalieri, o projeto envolve exigências típicas da indústria farmacêutica e de laboratórios de alta segurança.
“A primeira fase incluiu a preparação do terreno, fundações profundas, estruturas de sustentação, muros de contenção, reservatórios e a montagem da estrutura principal do edifício”, afirma Cavalieri.

O uso de elementos pré-fabricados permitiu acelerar significativamente o cronograma da obra.
A segunda etapa será dedicada às instalações técnicas que garantem o funcionamento de ambientes laboratoriais altamente controlados: sistemas hidráulicos e elétricos específicos, purificação de água, redes de tubulação, controle ambiental e complexos sistemas de ventilação e filtragem de ar.
O complexo também contará com biotério, laboratórios de biossegurança nível 3 e uma planta de produção piloto de vacinas.
Certificação e operação
Após a conclusão das instalações e equipamentos, o centro ainda passará por uma etapa de certificação regulatória.
Esse processo envolve inspeções e validações conduzidas por órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e autoridades sanitárias estaduais.
Embora o cronograma dependa dessas etapas externas, o planejamento atual prevê a finalização da infraestrutura e dos laboratórios até o fim de 2027.
Dez anos de trajetória
O avanço das obras coincide com uma data simbólica para o centro. Em fevereiro de 2026, o CTVacinas completou dez anos desde a realização da primeira reunião de seu conselho científico.
A estrutura que hoje se projeta como centro nacional começou de forma muito mais modesta.
“Naquele momento éramos apenas cinco professores com a ideia de construir um pequeno laboratório aqui no parque tecnológico”, relembra Santuza. “Quando olhamos para trás e vemos o caminho percorrido nesses dez anos, percebemos que foi uma trajetória muito significativa.”
O crescimento do centro foi resultado da articulação entre universidade, agências de fomento e instituições parceiras.
“A consolidação desse projeto envolve o esforço da UFMG, a parceria com a Fiocruz, o apoio da Fundep e o investimento de órgãos de fomento como a Finep e o Governo de Minas. Foi uma mobilização coletiva para responder a uma demanda estratégica para o país.”
Vacinas e diagnósticos
Ao longo da última década, o CTVacinas desenvolveu uma série de projetos voltados tanto para imunizantes quanto para testes diagnósticos.
Entre os mais emblemáticos está a SpiN-TEC, vacina contra a Covid-19 desenvolvida inteiramente no Brasil e que alcançou a fase de testes clínicos em humanos.
“Ela é um símbolo importante porque mostra que conseguimos levar uma ideia de vacina, desenvolvida integralmente no país, até a fase clínica.”
Outros projetos também avançam no portfólio científico do centro.
A expectativa é iniciar em breve testes clínicos de uma vacina contra malária. Pesquisas voltadas para imunizantes contra leishmaniose e doença de Chagas também estão em estágio avançado.
Além disso, o centro passou a investir recentemente em novas plataformas tecnológicas.
“Nos últimos anos iniciamos o desenvolvimento de vacinas de RNA. Era fundamental investir nessa área, já que praticamente todas as grandes empresas do mundo estão trabalhando com essa tecnologia.”
Na área de diagnóstico, o grupo também obteve resultados relevantes, incluindo o registro recente, junto à Anvisa, de um teste rápido para hepatite desenvolvido integralmente no CTVacinas.
Próxima geração
A programação de comemoração dos dez anos do centro continuará ao longo de 2026, incluindo um encontro científico previsto para outubro, que deve reunir pesquisadores brasileiros e internacionais no parque tecnológico da universidade.
A iniciativa pretende aproximar estudantes e jovens cientistas das estruturas que estão sendo construídas.
“Formamos, ao longo desses anos, um grande número de pesquisadores interessados em trabalhar com vacinas e doenças infecciosas”, afirma Santuza. “Agora essas pessoas vão poder ver seu trabalho científico sendo transformado em imunizantes reais.”
Para a pesquisadora, essa é a dimensão mais importante do projeto.
“Não basta ter um prédio moderno se não houver conhecimento acumulado por trás dele. O que construímos ao longo desses anos foi justamente essa base científica. O Centro Nacional de Vacinas nasce para transformar esse conhecimento em soluções concretas para a sociedade.”