Uma tecnologia desenvolvida pelo CTVacinas para monitorar a transmissão da malária vivax foi apresentada a autoridades e especialistas responsáveis pelas estratégias de eliminação da doença no Escudo das Guianas. O teste rápido surge como uma possibilidade para enfrentar um dos desafios mais complexos dessa fase do combate à malária: detectar a transmissão que pode permanecer ativa mesmo quando os casos aparentes diminuem.
A discussão ocorre em um momento em que países da região buscam avançar – e, em alguns casos, preservar conquistas já alcançadas – por meio de estratégias conjuntas de vigilância, diagnóstico e tratamento. A capacidade de identificar pessoas assintomáticas e sinais de circulação recente do Plasmodium vivax pode contribuir justamente para localizar focos que escapam das formas tradicionais de acompanhamento da doença.
Representado pela pesquisadora Julia Sampaio e pela professora e uma das coordenadoras Ana Paula Fernandes, o CTVacinas apresentou o teste rápido para detecção de anticorpos contra a malária durante a Subregional Meeting on Malaria Elimination in the Guiana Shield. Organizado com participação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o encontro reuniu autoridades de saúde pública e equipes técnicas do Brasil, Suriname, Guiana e Guiana Francesa.

“Em locais onde a malária já foi eliminada ou está sob controle, um dos desafios é saber se a transmissão continua ocorrendo de forma silenciosa. O teste pode ajudar a fazer essa leitura da população e, ao mesmo tempo, indicar com mais precisão quais indivíduos devem ser submetidos ao tratamento contra a malária vivax. Isso é especialmente relevante porque pessoas assintomáticas podem continuar participando da cadeia de transmissão”, explica Ana Paula Fernandes, integrante do comitê gestor do CTVacinas.
Cooperação entre países
Realizado nos dias 13 e 14 de agosto, em Paramaribo, no Suriname, o encontro internacional teve como foco acelerar a eliminação da malária em uma região marcada por desafios compartilhados entre os países, como circulação intensa de pessoas pelas fronteiras, áreas remotas de difícil acesso e transmissão associada a populações de mineração e comunidades indígenas.
Ao longo de dois dias, representantes dos ministérios da Saúde, especialistas e organizações internacionais apresentaram a situação da doença em cada território, avaliaram estratégias já adotadas e discutiram novas alternativas para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, fortalecer a vigilância transfronteiriça e incorporar novas tecnologias ao combate à malária.
A abertura contou com a participação da presidente do Suriname, Jennifer Geerlings-Simons. O país ocupa uma posição especialmente relevante nessa discussão: em 2025, tornou-se o primeiro da região amazônica certificado como livre de malária. O resultado mostrou que a eliminação é possível, mas também evidenciou outro desafio: manter uma vigilância capaz de identificar rapidamente qualquer retomada da transmissão.

É nesse cenário que o teste apresentado pelo CTVacinas pode ter aplicação. Além de contribuir para avaliar, em uma perspectiva populacional, se há sinais de manutenção da circulação do P. vivax, a tecnologia pode auxiliar na identificação de indivíduos que devem ser investigados e eventualmente submetidos ao tratamento.
A possibilidade ganha peso porque a eliminação da malária não depende apenas de tratar pessoas que chegam aos serviços de saúde com sintomas. Infecções assintomáticas podem permanecer sem diagnóstico e contribuir para a continuidade da transmissão, tornando mais difícil interromper completamente a circulação do parasita.
Ciência para eliminação
A apresentação do CTVacinas integrou uma agenda voltada justamente à busca de soluções capazes de levar os países da redução dos casos à eliminação sustentada da doença. Entre as prioridades definidas no encontro estão o fortalecimento da cooperação entre os territórios do Escudo das Guianas e a construção de estratégias específicas para Plasmodium vivax e Plasmodium falciparum.
O teste rápido brasileiro se insere nessa perspectiva como uma ferramenta de apoio à vigilância epidemiológica. Sua utilização pode ser especialmente relevante tanto em regiões que ainda trabalham para interromper a transmissão quanto naquelas que precisam demonstrar e preservar a condição de livres da malária.
Outra frente promissora
A tecnologia para malária se soma a outro teste desenvolvido pelo CTVacinas com potencial para contribuir com estratégias internacionais de eliminação de doenças. Em 2024, o Centro apresentou no World Hepatitis Summit, em Lisboa, um teste diagnóstico capaz de detectar simultaneamente as hepatites B e D – combinação para a qual não havia produto semelhante disponível no mercado.
A proposta é ampliar a identificação precoce da hepatite D, especialmente relevante porque a infecção simultânea pelos dois vírus pode levar a quadros mais graves. O desenvolvimento despertou interesse internacional e abriu novas possibilidades de colaboração, reforçando uma frente de atuação do CTVacinas voltada a transformar conhecimento científico em ferramentas para diagnóstico, vigilância e controle de doenças.