Uma vacina terapêutica de RNA capaz de reduzir a inflamação e melhorar alterações cardíacas associadas à doença de Chagas em modelo experimental será tema da próxima edição da Série de Seminários CTVacinas, na quarta-feira (16), a partir das 16h. A pesquisa investiga uma nova estratégia para enfrentar justamente um dos maiores desafios da doença: o tratamento da fase crônica da infecção.
O trabalho será apresentado no auditório do BH-TEC pela pesquisadora Mayra Ricci, bolsista de pós-doutorado do CNPq no Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB-UFMG. No estudo, uma vacina de RNA com sequências da trans-sialidase do Trypanosoma cruzi apresentou resultados promissores na modulação da resposta imune, na redução de danos aos tecidos e na recuperação da função cardíaca.
“A doença de Chagas ainda permanece como um grave problema de saúde pública, com altas taxas de morbidade e impacto econômico global. Embora o tratamento seja eficaz na fase aguda, sua eficácia é baixa na fase crônica, e o benznidazol, única droga disponível, pode causar diversos efeitos adversos”, explica Mayra.
Participe: faça sua inscrição gratuita aqui. O seminário terá transmissão ao vivo pelo YouTube do CTVacinas e os participantes inscritos poderão receber certificado digital de participação.
Um novo alvo
A pesquisa apresentada no seminário parte da trans-sialidase, proteína de superfície do T. cruzi que desempenha papel importante na sobrevivência do parasita e em sua capacidade de escapar da resposta imune. Essas características fazem dela um alvo potencial para novas estratégias contra a doença.
Em trabalho anterior, a imunização com uma proteína recombinante da trans-sialidase induziu uma resposta protetora do tipo Th1. A partir desse resultado, os pesquisadores avançaram para a avaliação de vacinas de RNA, plataforma com potencial para estimular esse tipo de resposta imunológica e mecanismos importantes no combate a parasitas intracelulares.
Desta vez, o objetivo não foi prevenir a infecção, mas avaliar uma estratégia terapêutica em animais já infectados pelo T. cruzi. A imunização promoveu altos níveis de interferon e IL-10, resultado associado pelos pesquisadores a uma resposta imune mais equilibrada.
Os efeitos também apareceram nos tecidos afetados pela doença. Houve redução significativa do infiltrado inflamatório no coração e no cólon dos animais imunizados em comparação com os infectados que não receberam a vacina.
“A vacina foi capaz de induzir uma resposta imune equilibrada, reduzir a inflamação nos tecidos e melhorar as disfunções cardíacas associadas à infecção crônica. Em conjunto, esses resultados mostram que essa pode ser uma estratégia terapêutica promissora para o controle da doença de Chagas”, afirma Mayra.
Um dos resultados que mais chamam atenção está justamente no coração, órgão que pode sofrer danos importantes durante a fase crônica da doença. Após a imunização, os pesquisadores observaram melhora no eletrocardiograma dos animais, com parâmetros da função cardíaca retornando a níveis comparáveis aos encontrados no grupo não infectado.
Os achados são experimentais e ainda integram uma etapa de pesquisa, mas ampliam a investigação sobre o uso das plataformas de RNA para além das vacinas preventivas, explorando seu potencial também como ferramenta terapêutica contra doenças infecto-parasitárias.
Mayra Ricci é biomédica e doutora em Patologia pela UFMG, com período de doutorado-sanduíche na Universidad de la República, no Uruguai. Atualmente, desenvolve pós-doutorado no ICB-UFMG e atua em pesquisas sobre doenças infecciosas e parasitárias, resposta inflamatória e novas estratégias de vacinação, com atenção especial à doença de Chagas.
Ciência em debate
A Série de Seminários CTVacinas aproxima pesquisadores, estudantes, profissionais de saúde e demais interessados de pesquisas e tecnologias em desenvolvimento em diferentes áreas das ciências biomédicas. Os encontros são gratuitos, contam com participação presencial e transmissão pelo YouTube do CTVacinas, além de certificado digital para os inscritos.
As palestras também ficam disponíveis posteriormente no canal do CTVacinas, ampliando o acesso às discussões e aos trabalhos apresentados.